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Qual é o maior problema do Brasil?

Uma pesquisa exclusiva, feita pela ONU, revela que, por trás de todas as preocupações da sociedade, está uma carência fundamental: faltam valores e caráter

O que precisa mudar no Brasil para sua vida melhorar de verdade? Essa pergunta foi lançada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento no Brasil (Pnud) e respondida por cerca de 500 mil brasileiros nos últimos seis meses. O número de participantes, por si só, surpreendente para uma pesquisa de opinião, é um indício de que a pesquisa fez algo de notável. Outras pesquisas do gênero costumam ouvir até 2 mil pessoas. O feito do Pnud é pioneiro não só no Brasil, mas em todos os países do sistema ONU. Ele foi possível porque universidades e empresas como Natura e TIM – além de ÉPOCA – se mobilizaram para chamar as pessoas a entrar no site da campanha Brasil Ponto a Ponto, onde a pergunta podia ser respondida pelo público. A campanha também envolveu sete audiências públicas e uma abordagem direta nas ruas em cidades gravemente afetadas pela pobreza. A pergunta, aberta, permitia respostas espontâneas, honestas e diretamente relacionadas aos interesses de cada um. Não era obrigatório participar. Não havia alternativas predeterminadas nem qualquer tipo de indução a um assunto específico. Cada um podia dizer o que quisesse, por escrito, conforme seu entendimento e sua consciência.

E o que o Brasil respondeu? Brenda Stephanie da Silva, uma das 500 mil pessoas que participaram da pesquisa, respondeu que o que precisa mudar no Brasil é a Educação, “pois é na Educação que começa tudo. Com mais investimento na Educação, teremos menos crianças nas ruas e consequentemente menos violência, mais empregos e saúde”. O ponto de vista de Brenda reflete a preocupação que mais apareceu nessa pesquisa. Tabuladas todas as frases e separadas as palavras-chave contidas nelas, a Educação foi o tema mais citado nas respostas, seguido de violência e emprego.

Educação, violência e emprego são normalmente os principais problemas apontados pela população em outras pesquisas. Então em que medida o palavrório popular pode transmitir alguma informação nova sobre os problemas do Brasil? Para Flávio Comim, economista sênior do Pnud e coordenador do Relatório de Desenvolvimento Humano Brasileiro, o mérito da pesquisa foi dar ao povo a oportunidade de dizer de que forma essas questões amplas interferem em sua qualidade de vida. “As respostas que recebemos têm o potencial de mudar o jeito de pensar os problemas. Elas apontam não apenas quais são as soluções, mas também como chegar a elas”, afirma Comim. Há duas mensagens contidas no conjunto dos desabafos, na conclusão dos organizadores. A primeira é que o poder público está distante demais para ouvir quais são as verdadeiras necessidades dos cidadãos. A segunda é que, se chegasse mais perto, saberia que o Brasil precisa mesmo é de mais civilidade.

Os cidadãos que responderam à pesquisa surpreenderam os pesquisadores. Ninguém esperava que eles misturassem os grandes temas, apontando relações de causa e efeito entre eles – como fez Brenda, ao ligar Educação, violência, emprego e saúde numa única frase. Essa surpresa dará uma nova cara ao Relatório de Desenvolvimento Humano, a ser publicado em vários cadernos separadamente até o início de 2010. O relatório, publicado anualmente em mais de cem países, baseia-se no conceito de desenvolvimento humano descrito pelo indiano Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia em 1998, no livro Desenvolvimento como liberdade. Ele diz em seu livro que o desenvolvimento não se mede pelo aumento da renda per capita nem pelo avanço tecnológico, mas pelo processo de expansão das liberdades. Uma medida mais confiável seria o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), um número formado por médias populacionais de Escolaridade, longevidade e Produto Interno Bruto (PIB) per capita. Ano após ano, o Pnud escolhe um tema para o relatório e divulga o ranking de IDHs. Segundo o economista Caio Piza, que participou da tabulação dos resultados da pesquisa na campanha Brasil Ponto a Ponto, até agora o tema do relatório era definido por um grupo de pesquisadores que se baseavam nas suas próprias áreas de interesse ou no que outros pesquisadores já estavam fazendo. “Pela primeira vez, o relatório vai abordar o que as pessoas comuns consideram relevante, como a sensação de insegurança, o preconceito que sofrem, o sentimento de exclusão”, diz Piza.

Também chamou a atenção dos analistas a menção frequente a valores como respeito, justiça, ética, dignidade e até carinho. Esses valores e outros “temas transversais” apareceram relacionados aos “temas substantivos” (como Educação, segurança e saúde), como parte do problema. O caráter das pessoas, ou seus valores, segundo a pesquisa, é tão importante quanto as políticas para solucionar as maiores carências da sociedade. “Toda noite, ao deitar, avaliamos as coisas certas e erradas que fizemos durante o dia. Se começássemos a corrigir nossas falhas, aí estaria a verdadeira mudança do ser humano. Mude o homem e terá um país melhor!”, escreveu um dos participantes, Laerte Silva, em sua resposta.

Embora Educação tenha sido o quesito mais lembrado pelos brasileiros, o que eles cobram é mais do que um desempenho melhor nos currículos tradicionais. Segundo os pesquisadores do Pnud, uma parcela importante das pessoas que se queixaram da Educação disse que a Escola deveria participar da transmissão de valores. Esse tema provoca debates acirrados entre os educadores. No Brasil, a Escola pública ainda se desdobra para lidar com as faltas dos professores, a distribuição da merenda e as contas no fim do mês. O grande desafio para o país é reduzir os índices de analfabetismo funcional e ensinar o mínimo de conhecimentos matemáticos até o fim do ensino médio. Incorporar a transmissão de valores pode ser uma tarefa complexa demais para quem mal consegue suprir o básico. Mas, como a pesquisa do Pnud confirma, o cidadão brasileiro não aceita um ensino que não contemple o comportamento dos alunos.


VALORES

A promotora Carolina, da Natura, diz que o país precisa de “respeito aos nossos sentimentos e atitudes” Para Simone André, coordenadora da área de juventude e Educação complementar do Instituto Ayrton Senna, no século XXI não podemos mais nos dar ao luxo de pensar a Educação Escolar somente como a transmissão de conhecimentos (ler, escrever, calcular). “Estamos sendo desafiados a pensar uma Educação Escolar que permita que os alunos aprendam a ser, conviver, conhecer e produzir na sociedade em que vivem.” Simone interpreta o resultado da pesquisa como uma percepção da sociedade muito sintonizada com a realidade. “As esperanças que antes eram depositadas na razão, na ciência e na tecnologia hoje são voltadas para a Educação.”

Assim como ocorreu com a Educação, a violência, o segundo tema mais lembrado pelos brasileiros consultados pelo Pnud, teve uma abordagem surpreendente. “Eles não falaram apenas da criminalidade ou da violência praticada pelos bandidos”, diz Comim. “Boa parte das respostas se refere à agressividade cotidiana, que nem sempre vai para os registros policiais.” Os respondentes mencionam brigas entre vizinhos e parentes. “A violência entre parentes é desconhecida”, escreveu a estudante Débora, de Boa Vista, de 13 anos. “Isso pode acabar com os sonhos da pessoa, principalmente das crianças. São pais engravidando suas próprias filhas e enteadas. Às vezes, a polícia não faz nada.”

As principais ações de segurança pública no país ainda não combatem essa violência entre pessoas conhecidas. Entre 1999 e 2008, o número de homicídios no Estado de São Paulo caiu 70%, segundo a Secretaria da Segurança Pública. “Isso não aconteceu por causa da transmissão de valores, mas pela retirada de circulação de armas de fogo”, afirma Túlio Kahn, coordenador de planejamento da Secretaria. O que o desarmamento não ajudou a reduzir, diz Kahn, foram as lesões corporais e as calúnias. As brigas deixaram de resultar em mortes – mas continuam acontecendo e causando feridas físicas e emocionais por motivos fúteis.

A prontidão do brasileiro para o conflito dentro e fora de casa não será controlada pela ação policial, mas por um tipo de Educação que não costuma fazer parte do programa de aulas no ensino público. “A violência acontece quando as pessoas só conhecem o caminho da força para resolver seus problemas do dia a dia”, diz Denis Mizne, diretor executivo do Instituto Sou da Paz. O antídoto para essa cultura da violência seria aprender a resolver esses problemas de outros modos.

Um exemplo dessa lição aconteceu numa das Praças da Paz SulAmérica, que o instituto vem criando em bairros da periferia de São Paulo. A Praça João Pais Malio, no Parque Regina, um bairro pobre da capital, foi por muito tempo o palco da discórdia da vizinhança. A quadra de esportes construída pela prefeitura em 1990 era usada apenas pelos marmanjos, que jogavam futebol à tarde. Alguns trabalhavam à noite e outros estavam desempregados. Quem quisesse usar a quadra para outra atividade era vencido pela brutalidade da turma dos mais velhos. Crianças e meninas que tentavam brincar naquele espaço eram expulsas. Um morador, que queria instalar lá uma cesta de basquete, diz que era intimidado pela turma do futebol. “A quadra era motivo para agressões físicas”, diz Marcio Bhering, morador do bairro. “Eu mesmo já briguei por isso.” Os brinquedos do parquinho infantil foram depredados, e ninguém sabia a quem pedir o conserto.

A estratégia do Sou da Paz para reduzir os níveis de violência e criar um uso coletivo para a área de lazer foi educativa. A equipe do instituto chegou lá de mansinho, em 2003, sondando os moradores com um projeto de reforma. Chamou os mais interessados para conversar, perguntou quais eram suas vontades na praça e pôs todo mundo para pensar em conjunto uma forma de organizar a ocupação da área. Ofereceu cursos de gestão para ensinar a ir atrás dos recursos em qualquer tipo de projeto. Com as festas, os shows musicais e as oficinas que o Sou da Paz promovia, a praça se encheu de gente. Foi aí que os moradores começaram a perceber que estavam no mesmo barco e tinham de remar para o mesmo lado. “A chave da nossa ação foi ensinar às pessoas que existem formas organizadas de resolver os conflitos, sem a violência”, diz Mizne.

Hoje, três anos depois de o instituto ter terminado seu trabalho ali, a Praça João Pais Malio tem uma quadra grande com gol, cesta de basquete e grade de horários para homens, mulheres e crianças. O parquinho cresceu e ganhou mesas com bancos de alvenaria. Eles não levaram embora todos os problemas do Parque Regina. Mas agora os moradores conseguem debater sobre eles e buscar as instâncias adequadas para resolvê-los. Além de uma área de lazer e esporte, o que eles adquiriram foi um pouco da liberdade e da noção de cidadania que, segundo o prêmio Nobel de Economia Amartya Sen, leva ao verdadeiro desenvolvimento.

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