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Cinderela corrupta e outras integridades

MACAU

CCAC adaptou pedagogia ao programa da Escola Portuguesa

Os alunos da Escola Portuguesa gostam de falar sobre corrupção, pedem mais histórias sobre Ao Man Long, acompanham o Apito Dourado e engraçam com o site da Transparência Internacional. O CCAC desce à escola uma vez por ano, passa uma hora com as turmas do sétimo e oitavo ano e é surpreendido. Os estudantes do secundário já presentearam o comissariado com uma Cinderela que tentou subornar a fada madrinha. Este ano fez-se um disco. A Escola Portuguesa também tem uma Semana da Integridade. Todos os anos os técnicos do CCAC preparam uma sessão de formação dirigida aos alunos do sétimo e oitavo anos. O trabalho com o primeiro grupo de estudantes é entroncado no programa de Educação Cívica. Resume-se a uma aula em que se pergunta o que é a integridade para, no ano seguinte, os alunos estarem aptos a debater uma história sobre corrupção e cumprimento da lei. As actividades são acertadas com a direcção da Escola, no início do ano lectivo. Quer os professores quer a assessora do Gabinete do CCAC que dirige a formação adaptam a cartilha e os materiais didácticos anti-corrupção à pedagogia ocidental. “A forma de tratar o tema é um pouco diferente. A integridade pode ser abordada em diferentes níveis, não tem que ser uma matéria tão formal e politizada”, destaca a professora e membro do núcleo de apoio à direcção da EPM, Fátima Oliveira. A volta à questão é dada na enumeração de casos próximos do quotidiano do aluno e na discussão ética que deve preceder uma decisão – os adolescentes, realça a docente, não se identificam em pleno com a banda desenhada da “Galeria da Integridade” cuja narrativa assenta na tríade situação de injustiça, denúncia às autoridades, resolução do conflito (ganham os honestos). Luísa Costa Ferreira é a representante do CCAC na Escola Portuguesa. Não chega com o aparato didáctico a que recorrem os técnicos chineses. Sem jogos, máscaras da Clarinha ou do Sr. Indigno, projecta um série feita em power point que se inspirou em modelos usados pelos serviços homólogos internacionais (no Brasil, por exemplo). “Os materiais que uso são muito mais simplificados. Tenho outro programa. O objectivo desta educação é criar valores correctos: discutir o que é bom e o que é mau em termos de vida em sociedade. Não damos muita importância à denúncia, ponho a tónica de outra forma. O primeiro passo é encorajar o faltoso a confessar. É educar para não mentir”, realça Luísa Costa Ferreira. O público-alvo fica moralmente dividido. “Há alunos que acham que copiar é grave mas acham também que denunciar um colega não é bonito. Colocam muitas vezes este problema: o que é uma denúncia e em que situações se deve denunciar? Para nós, o mais importante é mostrar que nada é absoluto”, contrapõe Fátima Oliveira. O director de turma, responsável pelas aulas de Educação Cívica, vai, continua, treinando o raciocínio do adolescente para a relativização dos conceitos e ajuda a descentralizar o ego moral: “O mais importante é que se questionem até que ponto podem prejudicar um colega ao lutarem por uma coisa que têm como correcta”, frisa. Os encarregados de educação nunca levantaram obstáculos à actuação do comissariado. As ressalvas, quando existem, partem dos professores. “Penso que no primeiro ano, o CCAC apresentou o ‘Jogo da Glória’. Para alguns directores de turma não era um material muito interessante. Discutiu-se qual a melhor forma de usar o jogo, sem ser tal e qual como foi formulado”, ilustra Fátima Oliveira. Tratava-se de um jogo de mesa em que os peões avançavam ou recuavam casas à medida que denunciavam situações de ilegalidade. “Esse aspecto foi aligeirado. Os alunos nunca jogaram sozinhos e sempre que chegavam a uma das casas a norma era posta à discussão”, destaca. “São sessões muito animadas. Os alunos respondem muito bem aos slides e os do oitavo ano são muito desinibidos: no ano passado, a sessão demorou mais vinte minutos porque eles queriam saber muitas coisas sobre o caso do ex-secretário para as Obras Públicas e Transportes. Acham também muita piada ao ranking dos países mais íntegros, querem saber como é que se lá chega e é a partir deste ponto que eu começo a falar de integridade”, descreve Luísa Costa Ferreira.

Posso chamar ladrão ao árbitro?

Por norma, os alunos definem o que é ser-se um cidadão íntegro pela negativa. “Conseguem perfeitamente verbalizar [o conceito de integridade]: é não mentir, é não copiar, é não ser desonesto, é não subverter as regras do jogo”, destaca a técnica do CCAC. Os adolescentes são também capazes de descrever actos de corrupção e de relatar o que lhes entra em casa pela televisão: os meandros do futebol português. “Uma aluna perguntou se podia dar um exemplo. Disse-me ‘a corrupção é aquilo que aconteceu agora em Portugal’. Contou-me o Apito Dourado todo”, relata. Outra situação, desta feita mais prosaica: “Fizeram-me esta pergunta no outro dia: ‘Quando vamos assistir a um jogo de futebol e o árbitro marca falta à nossa equipa com razão e nós gritamos ‘ladrão’, não estamos a ser íntegros, pois não?’. Pois, claro que não”, acrescenta. Durante a Semana da Integridade o CCAC lança, em paralelo com a acção de formação, concursos em que podem participar todos os alunos da EPM. A competição divide-se entre artes plásticas e texto. Este ano houve uma novidade, a criação de slogans, em que apenas participou uma turma. E deixou frases como “Se te metes em corrupção, a polícia entra em acção”, “Não à corrupção vais ser comido por um dragão” ou “Praticar a corrupção é mau ficas com as mãos pretas; cumprir a lei é bom ficas com as mãos brancas”. São lemas de vida que mostram como os estudantes “percebem perfeitamente o sentido das coisas”, avalia Luísa Ferreira; são proposições “à medida dos nossos alunos”, realça Fátima Oliveira. Os trabalhos são feitos fora do horário escolar, sem orientação dos professores. Em 2007, o cartaz que ficou em primeiro lugar na competição punha em confronto duas estudantes, numa situação de corrupção eleitoral. O negócio proposto – “vote na minha lista nas eleições de domingo e receba dinheiro em troca” – foi declinado com a argumentação da prática de crime mas não houve apresentação de queixa ao CCAC (ao contrário do esquema narrativo da “Galeria da Integridade”). “O mimetismo só acontece quando o estudante adere emocionalmente à ideia. Acabam por beber muito mais dos conteúdos que são trabalhados na aula de Educação Cívica do que deste material em bruto. [A Semana da Integridade] não pode ter impacto na personalidade do adolescente: os materiais são trabalhados de acordo com o projecto educativo da Escola Portuguesa”, esclarece Fátima Oliveira. Contudo, em 2005, os alunos do ensino secundário prepararam, por livre iniciativa, uma peça para a chefe de departamento do grupo de Relações Comunitárias do CCAC. “Foi durante a entrega de prémios. Encenaram um teatro a que chamaram ‘Cinderela Corrupta’. Havia uma tentativa de compra da fada madrinha para que a magia se prolongasse para além da meia-noite”, resume Luísa Ferreira. A EPM é, remata Fátima Oliveira, uma academia que prima pela diversidade cultural e ensina valores como a liberdade de expressão sem supremacias: “Aqui a opinião tem que ser livre, os alunos são incentivados a dizer o que pensam. Não devemos ter medo daquilo que as coisas fazem às pessoas quando são livremente debatidas. Por hipótese, podíamos recusar a entrada do CCAC na escola. Não sei se seria mais benéfico para os alunos: é bom que entendam que a política e a corrupção não estão longe do dia-a-dia. E ter conhecimento da diversidade de ideias é sempre mais enriquecedor do que fechar portas”, conclui a docente.

Hoje Macau


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