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Séculos de abandono

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504 anos do Velho Chico

Renan Calheiros

Ambientalistas, organizações não-governamentais, agricultores, líderes políticos, índios e representantes de populações ribeirinhas já vinham dando o grito de alerta há bastante tempo. Mas só agora, depois da greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio, a polêmica em torno da transposição do Rio São Francisco ganha dimensão verdadeiramente nacional. O sacrifício do frade franciscano foi mais do que um ato de amor pelo Velho Chico. Foi um gesto desesperado de quem dedicou a vida inteira à causa do povo sertanejo e sabe muito bem que a solução apresentada para a seca do Nordeste não passa de uma ilusão, que vai significar um desperdício monumental de dinheiro e comprometer, de uma vez por todas, dois terços dos recursos hídricos da região.

O Rio São Francisco, não é segredo para ninguém, está agonizando e dificilmente resistirá a mais essa agressão. O descaso das autoridades foi construindo, ao longo dos últimos 504 anos – em 1501 o navegador Américo Vespúcio chegou à foz do rio e decidiu chamá-lo de São Francisco –, uma história de devastação e abandono. De Paulo Afonso a Piaçatuba, para citar só Alagoas, a degradação ambiental expulsou das margens do Velho Chico mais de 10 mil pescadores, transformando-os em bóias-frias ou migrantes. A construção de grandes barragens restringiu o fenômeno da piracema e arrancou do São Francisco a força para arrastar toneladas de dejetos e areia jogados em seu leito.

Querer retirar 60 metros cúbicos de água por segundo do rio – como prevê o projeto de transposição – é condenar o Velho Chico à morte. Ele não tem vazão suficiente para gerar energia elétrica, irrigar e abastecer as cidades. Mais: seria necessária uma Sobradinho inteira, funcionando 24 horas por dia, para manter o sistema operando satisfatoriamente. Isso numa região em que a questão da geração da energia elétrica já é um problema sério.

As organizações que integram o Fórum Permanente de Defesa do São Francisco alertam que as populações difusas, espalhadas pelas comunidades, sítios e fazendas continuarão desassistidas com a transposição, que só vai beneficiar mesmo os pecuaristas da beira alta e colina sertanejas. Além disso, existe o risco de que, atravessando acidentes geográficos consideráveis, a transposição acabe por significar apenas um canal tímido de água, de duvidosa validade econômica e interesse social.

Nosso semi-árido não precisa de soluções espetaculares. Precisa de uma política racional e continuada de armazenagem de águas, de um impulso decisivo na direção de um desenvolvimento sustentável, que respeite as condições naturais da região. Precisa de ações efetivas para a preservação dos afluentes do Velho Chico, da implantação de adutoras, recuperação de açudes, construção de cisternas e pequenas barragens. Se o problema é levar água ao Nordeste, por que não apostar na integração das bacias Tocantins/São Francisco, uma operação de custo pelo menos dez vezes menor que o projeto de transposição do governo?

Para o nosso Velho Chico, o remédio é muito claro: a revitalização. Nosso rio demanda saneamento, proteção ambiental, proteção contra despejos de lixo, resíduos químicos e industriais. Soluções bem mais simples e mais baratas, que vão gerar emprego para muita gente. Ao contrário da transposição do rio, uma obra inútil e dispendiosa, que só vai fazer a festa do agronegócio e das grandes empreiteiras.

A greve de fome de dom Luiz Flávio Cappio pode até ter sido um ato radical. Mas o motivo não poderia ser mais nobre. Os sertanejos que o digam.



Renan Calheiros (PMDB-AL) é presidente do Senado Federal.

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