Pular para o conteúdo principal

Educação: os entraves para um ensino de qualidade

DA VEJA EM 08/07/2010:
O Ministério da Educação divulgou na última segunda-feira os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2009. Os resultados foram preocupantes: somente 5,7% das escolas públicas brasileiras conseguiram alcançar na avaliação a nota 6 – considerada um padrão internacional de qualidade. As avaliações oficiais têm se prestado bem ao propósito de lançar luz sobre os grandes problemas da educação no país – mas não fornecem resposta a uma questão básica: por que, afinal, as aulas não funcionam? Ao longo dos anos, reportagens de VEJA têm tentado elucidar essa dúvida.



Em 2008, uma pesquisa encomendada por VEJA à CNT/Sensus mostrou que, de modo geral, os pais brasileiros de todas as classes não se envolvem como deveriam na vida escolar dos filhos. Os mais pobres dão graças aos céus pelo fato de a escola fornecer merenda, segurança e livros didáticos gratuitos. Os pais de classe média se animam com as quadras esportivas, a limpeza e a manifesta tolerância dos filhos quanto às exigências acadêmicas muitas vezes calibradas justamente para não forçar o ritmo dos menos capazes.

Segundo o levantamento, para 89% dos pais com filhos em escolas particulares, o dinheiro é bem gasto e tem bom retorno. No outro campo, 90% dos professores se consideram bem preparados para a tarefa de ensinar. A mesma pesquisa mostrou que, com a justificativa de “incentivar a cidadania”, muitos professores incutem ideologias anacrônicas e preconceitos esquerdistas nos alunos. Os pais (61%) sabem que os professores fazem discursos politicamente engajados em sala de aula e acham isso normal. Os professores, em maior proporção, reconhecem que doutrinam mesmo as crianças e acham que isso é sua missão principal – algo muito mais vital do que ensinar a interpretar um texto ou ser um bamba em matemática.

Em comparações internacionais, os melhores alunos brasileiros ficam nas últimas colocações – abaixo da quinquagésima posição em competições com apenas 57 países. E a lanterninha brasileira tem explicações claras. No ano de 2003, uma pesquisa mostrou que nenhum país conseguiu obter bons resultados no campo da educação sem fazer investimentos significativos – e bem distribuídos. O Brasil reúne dois defeitos. O dinheiro é curto – 30.000 reais por aluno até os 15 anos, enquanto os Estados Unidos, por exemplo, aplicam 210.000 reais – e a distribuição dos valores, heterogênea.

Como explicaram a VEJA, em 2007, os economistas Eduardo Giannetti da Fonseca e o irlandês Dan O’Brien, o Brasil vai mal na educação por um motivo: falta pensar no futuro. Ao estudar as raízes do fracasso brasileiro, Giannetti detectou um padrão comum às autoridades que deram as diretrizes à educação ao longo dos séculos, nos vários níveis de governo: a mentalidade predominante sempre foi perseguir resultados imediatos aos investimentos na escola – sem focar em medidas cujos efeitos positivos pudessem se dar depois da troca de poder.

A experiência de países onde a educação funciona, segundo Dan O’Brien, reforça a ideia de que as escolhas brasileiras têm passado longe do que de fato importa a um bom ensino: metas acadêmicas, professores capazes de executá-las e um sistema preparado para cobrar os resultados. É um conjunto aparentemente simples, mas que só foi alcançado por países que, ao contrário do Brasil, souberam canalizar os recursos às (menos visíveis) questões pedagógicas – e esperar pelos resultados ao longo de décadas.

Já está provado que a investigação contínua sobre o que acontece na sala de aula guarda relação direta com o progresso acadêmico. Uma pesquisa de 2009 da Fundação Victor Civita mostra que, no Brasil, os diretores de escola pública gastam tempo demais com burocracia e pouco com as questões da sala de aula. Logo de saída, a pesquisa mostra que 64% dos diretores reconhecem, sem rodeios, não estar suficientemente preparados para exercer o cargo que ocupam. Talvez o mais preocupante de todos os dados, no entanto, diga respeito à visão que eles têm da função: apenas 2% deles se sentem responsáveis pelos maus resultados de sua própria escola, ao passo que os outros 98% culpam pais, professores, alunos, o colégio e até o governo.

No mesmo ano, uma reportagem de VEJA mostrou as adversidades enfrentadas pelos professores na sala de aula: alunos desmotivados, indisciplina, infraestrutura precária e violência. Para se ter uma ideia, 52% dos professores ouvidos em pesquisa da International Stress Management Association (Isma), feita em São Paulo e Porto Alegre, admitem atitudes agressivas com seus alunos, tendo sido irônicos ou até rudes. Não para por aí. Os próprios professores também são vítimas do ambiente ruim: de acordo com dados da Unesco, 47% já sofreram agressões verbais vindas de alunos.

Também em 2009, uma pesquisa mediu, pela primeira vez, o impacto da corrupção sobre o desempenho dos alunos. O resultado: quanto mais se rouba, mais as notas caem. Quando se trata de dinheiro, o que realmente pesa contra a qualidade das escolas é a maneira como ele é aplicado – muito mal. Poucos fatores prejudicam tanto o aprendizado no Brasil quanto o desvio e o mau uso dos recursos reservados às escolas. Resume Claudio Ferraz, um dos autores do estudo: “A ocorrência de casos de corrupção reduz significativamente as notas das crianças”. O atraso, revelado em provas oficiais, equivale a meio ano escolar.

Os três principais candidatos à Presidência em 2010, Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva, receberão um conjunto de propostas bem práticas para melhorar o ensino no Brasil. O objetivo do documento é tornar o debate menos ideológico – e mais racional. O texto é fruto de uma iniciativa que acaba de reunir oitenta especialistas do país na área (um grupo de diferentes matizes políticos e origens acadêmicas) para conceber um documento com ideias bastante objetivas para promover avanços no ensino básico brasileiro.

VEJA teve acesso com exclusividade às sete propostas que emergiram dessa análise. São elas: a punição de secretarias que fizerem mal uso da verba pública; a criação de um currículo nacional unificado; a flexibilização do ensino médio, de forma a fazer com que o aluno saia preparado para seguir a carreira que escolheu; conferir mais poder aos diretores de escola; universalizar nos colégios um sistema baseado na meritocracia e garantir aos alunos pelo menos uma hora a mais por dia na escola.

Em 30/6/2010: Propostas para avançar

Em 23/6/2010: Aulas cronometradas

Em 4/11/2009: Nota zero em gestão

Em 17/6/2009: Quando ensinar é uma guerra

Em 18/2/2009: Os ladrões de qualidade

Em 20/8/2008: Você sabe o que estão ensinando a ele?

Em 18/4/2007: O pior da turma

Em 9/7/2003: A batalha pela qualidade

Comentários

Postagens mais visitadas na última semana

ENCCEJA 2023

Aplicação do exame será no dia 27 de agosto. De 3 a 14 de abril, os participantes poderão justificar ausência no exame de 2022. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) publicou, nesta quarta-feira, 15 de março, no Diário Oficial da União (DOU), o Edital n.º 19, de 13 de março de 2023, que dispõe sobre as diretrizes, os procedimentos e os prazos do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) 2023. A aplicação para o ensino fundamental e médio será no dia 27 de agosto e ocorrerá em todos os estados e no Distrito Federal.

MG Resolução SEE nº 2.030 de 25/01/2012 - Implantação do Projeto Reinventando o Ensino Médio - Instituição e Regulamentação da Organização Curricular

RESOLUÇÃO SEE Nº 2.030, DE 25 DE JANEIRO DE 2012.  Dispõe sobre a implantação do Projeto Reinventando o Ensino Médio que institui e regulamenta a organização curricular a ser gradativamente implantada nos cursos de ensino médio regular da rede estadual de ensino de Minas Gerais.  A SECRETÁRIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO DE MINAS GERAIS, no uso de sua competência e tendo em vista o disposto na Lei Federal nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, na Resolução CNE/CEB nº 03, de 26 de junho de 1998, na Resolução CNE/CEB nº 04, de 16 de agosto de 2006, na Resolução CNE/CEB nº 4, de 14 de julho de 2010, e no Parágrafo único do art. 2º da Resolução SEE nº 2.017 de 30 de dezembro de 2011 com o objetivo de: - buscar a excelência no ensino e na aprendizagem;  - garantir a especificidade da formação do ensino médio da rede pública estadual de educação de Minas Gerais;  - gerar competências e habilidades para empregabilidade;  - preparar para o prosseguiment...

OBMEP 2017 - Gabarito da 1ª Fase

Gabarito da 1ª Fase da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas - OBMEP 2017 Obmep divulga as provas e soluções da 1ª fase CONFIRA A lista dos alunos classificados e seus respectivos locais de prova será divulgada em 11 de agosto no site da OBMEP. Na segunda fase os alunos com as maiores notas fazem uma prova discursiva. Os participantes são divididos em três níveis: no primeiro, estudantes do 6º e 7º ano do ensino fundamental; no segundo, estudantes do 8º e 9º ano do ensino fundamental; e no terceiro, estudantes do ensino médio. Os alunos recebem medalha de ouro, prata, bronze ou certificados de menção honrosa, de acordo com suas notas. Os medalhistas também terão a oportunidade de participar do Programa de Iniciação Científica Júnior, que inclui bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Nesta edição, os alunos da rede privada irão receber suas próprias medalhas e certificados, além de poderem participar do progr...

MG - Secretaria divulga gabarito definitivo do Processo de Certificação Ocupacional de Diretor de Escola Estadual

V eja o Gabarito da Certificação 2014 09/08/2013 - Confira o Resultado Final - Candidatos Certificados 26/07/2013 - Confira a Pontuação de Títulos 16/07/2013 - Confira o Resultado dos Recursos contra a Prova Objetiva 03/07/2013 - Confira a Lista dos Candidatos habilitados na Prova Objetiva RESPOSTAS DOS RECURSOS IMPETRADOS CONTRA O GABARITO GABARITO OFICIAL RESPOSTA DOS RECURSOS CONTRA O GABARITO Gabarito contempla duas questões que foram anuladas após análise dos recursos Está disponível no site da Secretaria de Estado de Educação (SEE) e da Fundação Makiyama , organizadora do ‘Processo de Certificação Ocupacional de Diretor de Escola Estadual’, em 2013, o gabarito definitivo da prova de certificação. Esse gabarito contempla duas questões que foram anuladas após análise dos recursos recebidos. Na próxima quarta-feira (03/07), será divulgada a relação dos candidatos que conquistaram pontuação igual ou superior a 60 pontos na prova objetiva. Já a partir do...

MG Certificação Ocupacional de Diretores Escolares 2022

EDITAL SEE Nº 05, DE 29 DE JUNHO DE 2022 - Certificação Ocupacional de Diretor de Escola Estadual da Secretara da Educação de Minas Gerais Acompanhe o processo através da página do Instituto Avalia SECRETÁRIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO DE MINAS GERAIS - MG 23/09/2022 - Confira o  resultado final 16/09/2022 - Confira o  gabarito definitivo 05/09/2022 - Confira o gabarito preliminar 25/08/2022 - Acesse o seu Cartão de Informação  do Candidato (Horário e Local de Prova) requer identificação 01/08/2022 - Faça sua inscrição até as 20h de 10/08/2022 30/06/2022 - Confira o edital As inscrições vão de 1° a 10 de agosto. Provas serão aplicadas nas cidades sedes das Superintendências Regionais de Ensino (SRE) no dia 4 de setembro. Os candidatos poderão se inscrever a partir das 10h do dia 1° de agosto até às 20h de 10 de agosto. A prova será aplicada em 4 de setembro. Clique aqui para acessar o edital .

Lista de blogs relacionados