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Regras na hora de ensinar

Educação e valores caminham juntos tanto em casa como na escola

BARTIRA BETINI, bartira.betini@grupoestado.com.br

Dá para ensinar valores na sala de aula? O educador brasileiro Ulisses F. Araújo e o espanhol Josep Maria Puig , autores do livro Em Educação e Valores, acreditam que sim. Na obra, que pertence à série Pontos e Contrapontos, publicada pela Summus Editorial, eles debatem os processos psicológicos que levam à construção de valores, bem como a influência da afetividade em tais processos e o conceito de inteligência moral.

JT: O que é educar em valores?

Araújo: O caminho está na criação de ambientes éticos nas escolas, de forma que seus professores e os conteúdos morais trabalhados sejam alvo de admiração e respeito por parte dos estudantes.

Puig: Aprender a viver exige uma educação completa, uma educação que inclua todas as facetas humanas. Uma educação que inclua os principais âmbitos da experiência humana e a aprendizagem ética que cada um deles pressupõe: aprender a viver é aprender a ser, a conviver e a participar.

É possível educar em valores?

Araújo: Sim, é possível, mas entendendo os processos psicológicos e sociais, que serão construídos pelos alunos e alunas se forem alvo de projeções afetivas positivas. Não serão construídos em aulas maçantes, em catecismos verbais. A escola precisa criar ambientes democráticos, pautados em relações de respeito, no protagonismo dos estudantes, que devem tornar-se atores e atrizes dos processos de aprendizagem e não meros reprodutores do mundo e de valores transmitidos pelos adultos.

Puig: Tentando sintetizar, considero que os valores não podem ser ensinados com discursos nem decorados. Os valores supõem uma aprendizagem prática de capacidades e destrezas, que se desenvolve por treinamento e exercício. É preciso alcançar um uso correto das capacidades morais graças à meditação da sensibilidade moral e à cultura moral.

Como se dão os processos de construção de valores?

Araújo: Os processos de construção de moralidade ocorrem desde o nascimento e estendem-se até a morte do indivíduo, ao contrário de algumas teorias que tentam limitar esses processos aos anos iniciais da vida.

Puig: Pela participação em práticas e pela reflexão. Quando tornamos nossos valores, temos condições de ativá-los por repetição ou por criação, de acordo com a situação concreta em que nos encontramos, e motivados pelo respeito que temos por nossa identidade pessoal. Mas a ativação correta desses hábitos depende de fatores pessoais.

Qual o papel da educação nesses processos?

Araújo: A escola, a família e os gestores dos sistemas de ensino deveriam tomar a decisão, que é política e social, de criar ambientes, pelo menos no micromundo das escolas, para ver se é possível atingir outros espaços públicos da sociedade e formar pessoas com maior responsabilidade ética.

Puig: Fazer com que os alunos vivenciem os centros educacionais como verdadeiras comunidades democráticas de aprendizagem, convivência e animação. É preciso explorar todas as conseqüências da convicção de que educar não é unicamente instruir, mas oferecer uma experiência significativa que o prepare para a vida como cidadão. Precisamos, enfim, criar uma cultura escolar que realmente englobe valores à vida dos nossos alunos, em todas as idades. Isso significa dedicar esforço ao planejamento e à realização dessas atividades.

Qual o papel da família?

Araújo: Complementar. A família deveria trabalhar valores de natureza mais privada e a escola, de natureza mais pública. Eles devem se complementar e não trocar acusações de que uma instituição está transferindo responsabilidade à outra. Numa sociedade ocidental, laica, como a nossa, a Declaração Universal dos Direitos Humanos é a melhor fonte de princípios e valores éticos. Proponho que todo o currículo, os projetos escolares, as aulas de matemática, história, geografia, português, etc., sejam desenvolvidas tendo a Declaração Universal dos Direitos Humanos como referência de seus conteúdos. Não concordo em criar aulas de ética ou de educação moral, pois esse tipo de conteúdo deve ser trabalhado a todo momento, no ambiente ético.

Puig: Há um conjunto de recomendações sobre educação e valores no âmbito familiar. Algumas delas: amar os filhos e filhas - trata-se de amá-los de um modo visível, perceptível por eles, sem cair num excesso de mimos, superproteção ou adulação - e ter tempo para estar com eles - provavelmente esta seja uma das condições mais importantes, pois, sem tempo para compartilhar o dia-a-dia, não há possibilidade de usar educativamente as experiências cotidianas. Além disso, os adultos devem estar capacitados para estabelecer limites que seus filhos devam cumprir.

Como formar moralmente?

Araújo: Eu proponho três tipos de ações: a introdução de conteúdos de natureza ética nos currículos escolares; a introdução de práticas de diálogo para a resolução de conflitos - por meio de assembléias escolares regulares, pois é a falta de diálogo que leva às formas violentas de resolução de conflitos - e, por último, por meio da educação comunitária, em que se rompem as paredes da escola para que os processos de educação em valores ocorram dentro e fora das salas de aula, no entorno, no cotidiano da vida das pessoas. Assim, neste terceiro processo, atingem-se, a partir da escola, as famílias e a sociedade próxima.

Puig: Ensinando com o exemplo e com o reconhecimento dos erros; falando e respeitando os silêncios; estabelecendo regras e permitindo exceções; mostrando como pensar por eles mesmos e dando-lhes nossa opinião como educador em todas as situações, sempre apontando o caminho da responsabilidade.

do
Jornal da Tarde

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